Obsolescência Programada: seu celular foi feito para durar pouco

Por Samuel Leal | Cérebro de Silício

Obsolescência Programada

Você comprou um smartphone há dois anos. Ele trava. A bateria não passa do meio-dia. As atualizações estão lentas. E de repente a sensação é inevitável: está na hora de trocar.

Mas e se eu te dissesse que essa sensação foi cuidadosamente projetada por engenheiros pagos para isso?

Isso tem nome. Chama-se obsolescência programada. E ela é, provavelmente, o maior golpe silencioso que a indústria de tecnologia aplica em você — repetidamente, de dois em dois anos, para o resto da sua vida.

O que é obsolescência programada

Obsolescência programada é uma estratégia usada por fabricantes para projetar produtos com uma vida útil limitada — celulares, tablets, notebooks e outros dispositivos são projetados para funcionar bem somente por um período determinado e, depois disso, acabam se tornando ultrapassados, apresentando defeitos ou perdendo utilidade, incentivando o consumidor a comprar um novo.

Em outras palavras: não é que a tecnologia avançou e seu aparelho ficou para trás. É que ele foi feito para envelhecer.

O primeiro registro do termo aconteceu em 1932, quando o corretor de imóveis americano Bernard London sugeriu a adoção da estratégia por lei para recuperar os Estados Unidos da crise de 1929.</cite> A ideia não virou lei, mas virou prática de mercado — e nunca mais saiu.

Como eles fazem isso com você

A obsolescência não funciona só de um jeito. Ela tem formas:

Bateria projetada para degradar. Smartphones e notebooks modernos tendem a apresentar baterias menos duradouras, estimulando consumidores a comprarem novos aparelhos. Não é acidente de fabricação. É decisão de design.

Atualizações que travam o aparelho antigo. A Apple já admitiu isso. Em 2017, após ser questionada, a Apple admitiu ter utilizado uma atualização para limitar o desempenho de smartphones antigos — iPhone 6, iPhone 6S, iPhone SE e iPhone 7. A companhia alegou que a atualização se destinava a evitar que aparelhos pudessem ser danificados pelo desgaste natural da bateria. Pode ser. Mas o resultado prático foi: aparelhos lentos, usuários insatisfeitos, vendas do modelo novo disparando.

Design que inviabiliza o reparo. Novos smartphones costumam apresentar design de System-on-a-Chip único, o que encarece reparos de uma única peça com defeito e, consequentemente, torna a aquisição de novos produtos mais vantajosa. Consertar fica mais caro do que comprar o próximo. Essa não é uma coincidência.

Obsolescência percebida. A mais sutil de todas. A “obsolescência percebida” é quando o usuário passa a enxergar o próprio celular como ultrapassado, seja devido a lançamentos frequentes e à propaganda em torno deles, ou a pequenas falhas técnicas no dia a dia. Seu celular funciona perfeitamente — mas parece velho. Esse sentimento foi construído.

Os números que a indústria prefere que você não veja

Segundo estudo de 2025 da Universidade de Zagreb, a vida útil média global de smartphones é de aproximadamente 2,78 anos — e na maioria dos casos, os aparelhos ainda estão funcionando quando são trocados.

Um smartphone poderia durar de 12 a 15 anos, segundo Benito Muros, presidente da Fundação Energia e Inovação Sustentável Sem Obsolescência Programada. Na maioria das vezes, as atualizações realizadas nas versões seguintes são meramente incrementais ou estéticas.

Pensa nisso: seu celular poderia durar 12 anos. Você troca em menos de 3. A diferença entre esses dois números é o lucro da indústria — e o seu prejuízo.

E no Brasil, ninguém faz nada?

Inexistem normas no Brasil que combatam de forma específica a obsolescência programada, o que permite o seu crescimento e utilização em larga escala.

Enquanto a Europa avança com leis de direito ao reparo — obrigando fabricantes a disponibilizarem peças e suporte por mais anos — o consumidor brasileiro segue sem proteção específica. Trocando de aparelho no ritmo que a indústria definiu, sem questionar.

O que você pode fazer

Primeiro: reconheça o padrão. Quando seu celular começar a “ficar lento” logo depois de um lançamento novo da mesma marca, questione. Será lentidão real ou lentidão induzida?

Segundo: troque a bateria antes de trocar o celular. Na maioria dos casos, uma bateria nova resolve o problema que levaria você a uma loja.

Terceiro: verifique quantos anos de atualização seu próximo aparelho garante antes de comprar. Samsung e Apple já oferecem 7 anos em alguns modelos. Isso importa.

A obsolescência programada só funciona porque a maioria das pessoas não sabe que ela existe. Agora você sabe.

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